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(Foto: Divulgação) |
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[12 JUN 2006]
O samba chula, também conhecido como samba de viola, é uma variação do samba de roda, originado e cultivado na região do Recôncavo Baiano. Foi lá que nasceu, na cidade de São Francisco do Conde, “Os Filhos da Pitangueira”, grupo que tem se mantido fiel à tradição desse ritmo, buscando preservar as características originais da dança, do canto e da forma de tocar os instrumentos. A performance do grupo vai poder ser conferida, no Ceará, em quatro apresentações: no sábado (17), às 20 horas, no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza; domingo (18), em Sobral, na terça (20), no Crato, e quarta (21), em Juazeiro do Norte.
O grupo foi fundado em 1986 pelo Mestre Zeca Afonso. Levado pelo pai, desde criança, para as rezas de São Cosme, São Roque e Santo Antônio, onde a chula era parte obrigatória, ele aprendeu os cantos e toque do pandeiro característico do ritmo. Até hoje, faz a primeira voz no “Os Filhos da Pitangueira”, acompanhado por mais oito tocadores e gritadores, além de seis sambadeiras.
Uma das características mais tradicionais do samba chula é a presença da viola típica do Recôncavo, chamada “machete”. Produzida artesanalmente, com um pequeno talhe e timbre agudo, esse instrumento está hoje quase extinto, pois são raros os artesãos que ainda se dedicam à sua fabricação. Pesquisa feita pela etnomusicóloga Katharina Doring mostra que “Os Filhos da Pitangueira” é o único grupo que ainda usa a viola machete, com o exímio tocador Zé de Lelinha. “Alguns outros grupos de samba chula que ainda possuem uma viola machete não a usam por falta de um bom tocador e a substituem pelo cavaquinho ou pela viola paulista, que tem uma sonoridade mais dura e metálica”, explica.
Outra marca do samba do Recôncavo, que o diferencia dos demais sambas de roda, é o canto: este inicia com a chamada “chula”, composição poética que possui de dois a seis versos, entoados por uma dupla de cantadores (ou gritadores). Esta é seguida por um “relativo”, dois versos que têm a função de comentar ou ironizar a narrativa da chula. O timbre e as técnicas vocais utilizadas nesse canto têm características específicas – o contexto em que surgiu, como uma forma de distração dos trabalhadores das lavouras de cana, determinam esses traços: como precisavam ser ouvidos uns pelos outros a uma distância de até 50 metros, eles não cantavam, mas “gritavam” a chula. “Este timbre de voz, diferente do padrão estético da música popular em geral, é característico da região e remete ao surgimento da chula que vem de um contexto de trabalho, desde os tempos da escravidão”, explica Katharina Doring.
A coreografia do samba chula também tem regras bem definidas, que são seguidas pelos “Filhos da Pitangueira”. Nele, somente mulheres entram na roda para sambar. As dançarinas entram, uma de cada vez, após a execução da chula e do relativo. Os passos miudinhos vão servindo de inspiração para os improvisos dos músicos. Uma sensualidade discreta está presente em todos os movimentos: “os músicos são todos homens e têm um prazer enorme de acompanhar e comentar os passos, gestos e movimentos das mulheres com seus ritmos, acentos, improvisações melódicas e a poesia das chulas, também utilizando recursos mímicos de aprovação e prazer enquanto uma dançarina se aproxima do violeiro sambando na sua frente em movimentos miúdos e convidativos”, descreve Katharina Doring. Um convite também para todo o público entrar na roda e se entregar à musicalidade irresistível dos sons africanos.
Sonora Brasil
Realizado pelo Sesc Nacional em parceria com o Sesc nos estados, o Projeto Sonora Brasil promove, desde 1998, a circulação pelo País de grupos musicais das mais variadas origens, traçando um panorama histórico da música brasileira.
Nessa nona edição, o projeto divulga as tradições socioculturais, estéticas e religiosas típicas da cultura brasileira descendente de africanos, europeus e indígenas – a cultura crioula. “Estamos resgatando o termo, tratado pejorativamente. O termo ‘crioulo’ representa a diversidade brasileira: é a característica da mistura das culturas, de quem já não é uma coisa ou outra, mas brasileiro”, explica Wagner Campos, coordenador do Sonora Brasil.
O projeto é dividido em quatro etapas. A primeira, com “Os Filhos da Pitangueira”, começou em maio e vai até julho, apresentando-se em 58 cidades, de diversos estados do País. Nas próximas, que acontecem entre julho e dezembro, serão apresentados os grupos “Banza”, do Paraná, “Gentil do Orocongo”, de Santa Catarina e “Em Tempo" de Pernambuco.
Os Filhos da Pitangueira – Ficha Técnica
TOCADORES
- Zeca Afonso (José Afonso Gomes) - pandeiro e 1ª voz - Zé de Lelinha (José Vitório dos Reis)- viola Machete - Aurino Paciência - pandeiro e 2ª voz - Nemézio Isaias da Silva - pandeiro e 3ª voz - João da Mata Bispo - violão - Djalma Afonso Gomes - tamborim couro de jibóia - Edmundo da Cruz – marcação - José Valberto dos Santos Junior - pandeiro - Antonio Carlos dos Anjos - sanfona
SAMBADEIRAS
- Lindaura Rocha Ribeiro - canto - Neuza Maria Rocha -canto - Railda Afonso Gomes - canto - Celina da Conceição Santos - canto - Ilda da Rocha - canto - Arlinda Serqueira dos Anjos - canto
SERVIÇO: Sonora Brasil – 1ª etapa: Os Filhos da Pitangueira Sábado (17), no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza; domingo (18), no Sesc Sobral; terça (20), no Sesc Crato, e quarta (21), no Sesc Juazeiro do Norte. Sempre às 20 horas. Ingressos: R$ 5 (inteira) e R$ 2,50 (estudantes, idosos e comerciários). |