[22 JUN 2006]
O samba chula, também conhecido como samba de viola, é uma variação do samba de roda, originado e cultivado na região do Recôncavo Baiano. Foi lá que nasceu, na cidade de São Francisco do Conde, “Os Filhos da Pitangueira”, grupo que tem se mantido fiel à tradição desse ritmo, buscando preservar as características originais da dança, do canto e da forma de tocar os instrumentos.
Uma das características do ritmo são os passos miúdos das mulheres, que se revezam no centro da roda de samba. No “Os Filhos da Pitangueira”, o dançar pertence somente a elas, que arremedam com vozes agudas, mas fortes, o cantar dos homens. Estes, de chapéus na cabeça, são responsáveis também pelo batuque ritmado típico do samba chula.
Vindo da África, o ritmo foi trazido pelos escravos, que aliaram em uma só festa a dança e a fé. “Era costume, antigamente, o povo rezar para São Cosme, São Damião e Santo Antônio. Então, depois da reza, sempre tinha samba chula. Marcava-se era o samba, mas a reza vinha antes. E o rezador só marcava quando não coincidia ter dança em outra casa, para que a comunidade não se dividisse”, diz o sambista Zeca Afonso, de 71 anos.
Como fundador do “Os filhos da Pitangueira”, seu Zeca Afonso conta ter aprendido com seu avô os cantos e toques do pandeiro característicos do ritmo. Ele lembra que, com a idade de nove anos, seu pai lhe “deu” ao seu avô, para que nele, menino ainda conhecido como José Afonso, fosse perpetuada a tradição do samba chula. “Meu avô viu que eu ia ser um bom sambador”, recorda o sambista.
Fazendo a primeira voz no “Os Filhos da Pitangueira”, acompanhado por mais oito tocadores e gritadores, além de seis sambadeiras, o sambador disse que, quando era menino, o samba quase acabou. “As pessoas foram deixando para trás o costume de rezar àqueles santos”, responde seu Zeca Afonso, enquanto tentava encontrar uma resposta ao quase desaparecimento do ritmo.
Na apresentação em Fortaleza, os artistas do “Os Filhos da Pitangueira” dividiram o palco com o público, formando uma grande roda, mostrando de perto como se dança o samba chula. Transmitindo cultura através da música, o dançar junto no palco ensina e difunde às novas gerações os passos miúdos e ritmados. “Eu acho muito boa essa ‘modernagem’, o pessoal ‘novo’ participando com a gente. Sempre fazemos essa jornada de samba de roda no fim das apresentações, para estimular os jovens a aprender o nosso samba”, diz seu Zeca Afonso.
Durante o espetáculo, vários artistas do grupo se revezaram fotografando a apresentação. Cunhada de seu Zeca, Dona Celina, 53, tem vinte anos de dedicação ao samba chula. Sempre carregando em sua bagagem uma máquina fotográfica, a sambista disse um corrido “digital não, que é difícil de mexer, minha filha”, e subiu mais uma vez ao palco, dessa vez como fotógrafa, registrando a presença do público em Fortaleza. “É para lembrança daqui”, disse Dona Celina, ao retornar ao chão. Entregando a máquina fotógráfica a uma assistente, a sambista carregou ao palco novamente sua “palma”, um dos instrumentos musicais típicos do samba chula. Segundo Dona Celina, a palma é feita de tacos de madeira que, ao serem segurados nas mãos e chocadas umas contra as outras, reproduzem “o som seco das quengas de coco”.
Os “Filhos da Pitangueira” são todos de São Francisco do Conde, cidade do interior da Bahia. Vizinhos ou parentes, todos moram nas cercanias do bairro da Pitangueira – daí o nome do grupo, sugerido por seu Zeca em 1968. Desde então, o “Filhos da Pitangueira” dança e batalha junto, superando dificuldades e conquistando méritos , fazendo de tudo para não deixar o samba morrer. “O samba quase acabou. Agora, acaba mais não, porque foi reconhecido como patrimônio da Humanidade. Quando eu vejo toda essa gente nova dançando junto na roda, eu tenho certeza: o samba não vai mais acabar”, diz, emocionado, seu Zeca Afonso.
O Projeto Sonora Brasil com o grupo musical “Os Filhos da Pitangueira” pôde ser conferido, no Ceará, em quatro apresentações: no sábado (17), no Centro Dragão do Mar, em Fortaleza; domingo (18), em Sobral; na terça (20), no Crato e na quarta (21) em Juazeiro do Norte.
Redação: Deise Magalhães Estagiária de Jornalismo Assessoria de Comunicação - Sesc Ceará |