[12 JUL 2006]
Deise Magalhães (estagiária) Da Redação
O Projeto Sexta da Tradição Oral recebe, nesta sexta-feira (14), às 20 horas, no Sesc Senac Iracema, o grupo Caninha Verde da Mestra Gertrudes. Formado no bairro Mucuripe, em Fortaleza, é um dos raros grupos no País que ainda mantém a tradição dessa dança de origem portuguesa, introduzida no Brasil na época do ciclo do açúcar. Aqui, os traços lusos originários foram sofrendo transformações ao longo dos anos, resultando numa singular expressão da cultura popular tradicional cearense.
Quem conta a história é a própria Gertrudes, ou melhor, Dona Gerta, como costuma ser chamada: “A dança veio de Portugal, num navio que aportou no Cumbuco”. Segundo a mestra, na época da I Guerra Mundial, navegantes portugueses à deriva encontraram um pescador, chamado Chico Manchico e lhe pediram ajuda para voltar a Portugal. Enquanto Chico resolvia na Capitania dos Portos a situação dos portugueses, os navegantes ficaram na praia, se alimentando de cana-de-açúcar, peixe e frutos locais.
Adoecendo por comerem frutos verdes, os portugueses contaram com a ajuda de Chico Manchico para se recuperarem das mazelas tropicais. Esperando voltar às terras lusas, os portugueses, já quase sem vestes, resolveram usar a cana-de-açúcar como matéria-prima para fabricarem suas próprias roupas. Para passar o tempo, começaram também a lembrar suas danças e adaptá-las ao contexto local.
Surgem, assim, as tradições da Caninha Verde, que retrata no colorido de suas roupas cada parte de um pé de cana-de-açúcar. Chico Manchico passaria seu conhecimento para José Três Vezes, ex-escravo, que seria o tutor do jovem José dos Santos. Ainda jovem, seu José, hoje falecido, conseguiria levar o Caninha Verde para desfilar no carnaval da cidade, em 1944. Sua esposa, dona Gertrudes, hoje Mestra da Cultura Cearense, aprendeu as danças e tradições do Caninha Verde com seu marido. Inicialmente ela só ajudava na confecção das roupas e chapéus, já que mulher “não brincava” nos carnavais.
Dona Gerta tem filhos e bisneto participando do Caninha Verde. Um de seus maiores orgulhos é vestir o traje completo do grupo antes de uma apresentação: calça e chapéu verde, blusa amarela, lenço estampado e sapato branco. O grupo, hoje também com mulheres brincantes, tem cerca de quarenta participantes entre crianças e adultos, entre dançadores, tocadores de violão, cavaquinho, surdo e pandeiro. Todos conduzidos pelos versos cantados por Mestra Gertrudes, já com 78 anos de idade e 53 anos à frente do Caninha Verde.
SERVIÇO: Sesc Senac Iracema – Rua Boris, 90c, ao lado do Dragão do Mar. Horário: 20 h. Ingressos: R$ 2,00 (inteira) e R$ 1,00 (meia para estudantes, comerciários e idosos).
(Fotos: Júnior Panela)
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